Templo Caboclo Pantera Negra

O que é Umbanda Omolokô?

O Babalorixá Ornato José da Silva afirma, em seu livro, “Culto Omolokô: os filhos do Terreiro”, que a palavra Omolokô é de origem Yorùbá e significa: Ọmọ (filho) e Oko (fazenda). A fazenda, para o autor, seria a zona rural onde esse culto, por causa da repressão policial que havia naquela época (início do século XX), era realizado, ou seja, na mata ou em lugar de difícil acesso, no interior das fazendas dos donos de escravizados.2

 

Talvez, por causa disso, possamos teorizar que hoje temos as denominações de “Terreiro” e “Roça” para os lugares onde os cultos afro-brasileiros e de matriz africana são realizados.

 

Podemos relacionar, também, o significado da palavra Omolokô com o Òrìṣà Oko, Orixá da agricultura ou com o Òrìṣà Irókò, Orixá que habita a árvore de mesmo nome e é cultuado no Candomblé. Segundo se diz, o orixá Oko era cultuado no Rio de Janeiro e era assentado junto com o Òrìṣà Ọṣọ́ọ̀si (Oxossi), pois Oko, assim como Ọṣọ́ọ̀si são caçadores, porém não há dados suficientes que possam confirmar isso.

 

Outra associação que podemos fazer é a sua relação ao vodun Loko cultuado pelo povo Fon-Jêje, que tem como correspondente yorùbá o orixá Irókò, já citado, e que por sua vez, corresponde ao Inkisi Tempo (Kitembo) na nação Angola de Candomblé. Na época em que os cultos religiosos de origem africana eram proibidos, esse Orixá foi sincretizado a Santo Onofre.

 

Pesquisas mais recentes dão conta de que a origem do nome Omoloko, também está ligado ao povo Loko. A tribo Loko estava dividida em tribos menores ao longo dos Rios Mitombo, Bênue e Níger, e no litoral de Serra Leoa. Sua cidade principal era Lokoja, que ficava muito próximo ao reino Yorùbá. Crê-se que alguns escravizados do povo Loko, no Brasil, vieram a formar o que alguns chamam de Nação Omolokô.

 

Segundo Taata Tancredo da Silva Pinto, organizador e o maior incentivador da Umbanda Omolokô, cujo nome iniciático (Sunna3) era Fọ̀lkétu Olóròfẹ̀, o culto Omolokô chegou ao Brasil proveniente do sul de Angola, onde era praticado por uma pequena tribo pertencente ao grupo Lunda-Quiôco, que ficava às margens do rio Zambeze, que lhes fornecia alimentação no período das cheias.

 

Para o músico e escritor Nei Lopes o Omolokô seria um…

 

antigo culto banto cuja expansão se verificou principalmente no Rio de Janeiro, na primeira metade do Séc. XX. O nome liga-se provavelmente ao quimbundo muloko, “juramento”; ou ao suto, moloko, “genealogia”, “geração”, “tribo”. Na Angola pré-colonial, Nganga-ia-Muloko era o sacerdote encarregado da proteção contra os raios.4

 

Podemos afirmar, então, que o nome Omolokô define um culto originário do Rio de Janeiro com práticas rituais e de culto aos Orixás, Bacuros/Inkices ou Voduns e que possui, também, culto aos Caboclos, Pretos-velhos, Exus e demais Entidades Espirituais da Umbanda em geral e outras entidades encontradas no Catimbó-Jurema, Toré, Babaçuê, Tambor de Mina etc.

 

O culto Omolokô é apontado por estudiosos do assunto e praticantes como um dos principais influenciadores da formação da Umbanda africanizada ao lado do Candomblé de Caboclo, da Cabula e do próprio Candomblé.5

 

Em que pese essa ligação principal com o Rio de Janeiro, sabe-se que o Omolokô organizou-se principalmente em algumas regiões do sudeste do país, que forneceram grande contingentes de migrantes para a capital do Estado da Guanabara. […] O Omolokô era forte na zona da mata mineira, em todo o estado do Rio, no nordeste paulista e em parte do Espírito Santo – sobretudo nas áreas rurais. As correntes migratórias internas teriam trazido (ou reforçado) essa modalidade de religião afro-brasileira para o Rio de Janeiro – e elas existiam também em outras partes da cidade: Luiz Edmundo (1987, pp. 72-73), por exemplo, relata a existência, no início do século XX, de um Terreiro na antiga travessa do Castelo, comandado por um certo João Gamba, natural de Luanda, cujos rituais apresentavam formas muito semelhantes de incorporação e ressignificação de diferentes matrizes religiosas.6

 

No culto Omolokô as divindades possuem nomes em língua Yorùbá, Fon-Ewe ou Congo-Angola. Na maioria dos Terreiros Omolokô há o culto aos Orixás, em semelhança ao Candomblé Ketu, por isso são utilizados os Oríkì (poemas laudatórios, que mencionam os valores, atividade e importância de um Orixá, Rei, autoridade etc) para homenageá-los. Os Orúkọ (nomes iniciáticos) são dados por meio da consulta ao Jogo de Búzios. Seus “assentamentos” são semelhantes aos feitos no Candomblé e os Exus são feitos em argila, à semelhança de um busto de uma pessoa, ou então, simbolicamente, em ferro.

 

Taata Tancredo afirmava que: “a Umbanda é [gn] africana, é um patrimônio da raça negra” e que achava graça quando ouvia os “líderes da Umbanda Branca dizendo que a religião [apenas] sofre influência das tradições africanas”7. Para ele, a Umbanda é um culto de origem africana e esse viés africanista da Umbanda pode ser visto em uma de suas afirmações:

 

Terreiro de Umbanda que não usar tambores e outros instrumentos rituais, que não cantar pontos em linguagem africana, que não oferecer sacrifício de preceito e nem preparar comida de santo, pode ser tudo, menos Terreiro de Umbanda.4

 

Para afirmar a característica africana da Umbanda e dar uma formação intelectual aos praticantes do Omolokô, organiza no Rio de Janeiro o primeiro curso de língua e cultura Iorubá.

 

Na Umbanda Omolokô há iniciação para Orixá, Vodun ou Bacuro, com recolhimento do iniciando à “camarinha” por um período não inferior a três dias. Além da chamada divindade tutelar, que é assentado primeiro, o membro de um Terreiro de Umbanda Omolokô é iniciado para mais duas outras divindades, que farão parte do “enredo” espiritual do adepto.

 

Há, também, a consagração para as entidades espirituais com as quais trabalharão, que serão firmadas ou assentadas.

 

Várias casas de Umbanda, cujas formas de culto são consideradas de cunho africanista, originaram-se do culto Omolokô, ou das antigas Casas de Macumba que, mais tarde, foram reconhecidas como praticantes do culto Omolokô, especialmente depois da divulgação de suas práticas nos livros escritos por Taata Tancredo da Silva Pinto. Essas Casas mantiveram uma estrutura de culto aos Orixás, em harmonia com os guias espirituais.9

 

Sobre a Umbanda Omolokô, podemos ver no site de Internet da Federação de Umbanda do Brasil (FUB) a seguinte afirmação:

 

Não objetivamos afirmar que a Umbanda Omolokô seja a melhor ou a pior. Em minha concepção a Omolokô é a mais “original”, no sentido de manifestações, é a que mais se próxima daquilo que as entidades que povoam os cultos afro-brasileiros ou afro-ameríndios representam. No Omolokô as entidades não precisam se utilizar dos comportamentos “doutrinados”, em que tudo é padrão. As entidades podem se manifestar livremente e isso é muito desejável. Os Babalorixás e Yálorixás não determinam como as entidades devem se manifestar, apenas determinam como deve ser o comportamento ético do médium, colaborando com seu crescimento espiritual, atraindo para si entidades de Luz.10

Referências

[1] Esse texto foi escrito em 2012 e revisado e corrigido em 2017, por mim, Mário Alves da Silva Filho.
* Sacerdote afro-religioso, dirigente do Templo Espiritual Pantera Negra e do Ilé Ifá Ajàgùnmàlè Olóòtọ́ Aiyé. Especialista e Mestre em Ciências da Religião, pela PUC/SP; especialista em História da África e do Negro do Brasil, pela UCAM; especialista em Políticas Públicas de Segurança Pública, pela PUC/SP; Bacharel e Mestre em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública, pela APMBB. Endereço eletrônico: ezezide@gmail.com
[2] SILVA, Ornato José da. Culto Omoloko: os filhos do Terreiro. Rio de Janeiro: Rabaço Editora, 1980.
[3] Palavra de origem árabe que quer dizer tradição. Na Umbanda Omolokô se percebe a influência dos malês (muçulmanos negros escravizados)
[4] LOPES, Nei. Enciclópedia brasileira da Diáspora Brasileira. São Paulo: Selo Negro, 2004, p. 497.
[5] OMOLU, Caio de. Umbanda Omolocô: liturgia, rito e convergência. São Paulo: Ed. Icone, 2002.
[6] CUNHA, Mª. Clementina Pereira. Não tá sopa: sambas e sambistas no Rio de Janeiro, de 1890 a 1930. Campinas: Ed. UNICAMP, 2016, s/p.
[7] FREITAS, Byron Torres de & PINTO, Tancredo da Silva. Camba de Umbanda. Rio de Janeiro: Editora Souza, 1956.
[8] Idem.
[9] OMOLU, Caio de. Op Cit.
[10] Disponível em: http://www.fub.org.br/artigos/?art=omoloko. Acesso em 11/06/2012.

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