Templo Caboclo Pantera Negra

Água e óleo se misturam?

Por Mario Filho

 

 

Há algum tempo um membro do Templo Espiritual Caboclo Pantera Negra, em seu perfil do Facebook, fez os seguintes questionamentos: “E aí, uma pessoa pode misturar tradição africana, tradição cristã, paganismo, bruxaria e outras práticas esotéricas e fazer tudo junto e misturado? Será que água benta e azeite de Dendê se misturam?”

 

Houve a participação de várias pessoas que em vez de tentaram responder aos questionamentos, fugiam das perguntas, fazendo críticas ao questionamento. Foi quando entrei na conversa, que a resumo abaixo:

 

“Meus caros, creio que está havendo alguns enganos conceituais, que devem ser observados, para que se compreenda a postagem inicial.A pergunta foi: ‘E aí, uma pessoa pode misturar tradição africana, tradição cristã, paganismo, bruxaria e outras práticas esotéricas e fazer tudo junto e misturado?’ A resposta óbvia é NÃO, porém….Mas, o que é tradição africana? O que é tradição cristã? O que é paganismo? O que é bruxaria? O que são “práticas esotéricas”? Se não formos capazes de responder a essas perguntas, não será possível uma resposta adequada! Temos, primeiro, que saber o que é tradicional e de qual ‘tradicionalismo’ estamos falando.

 

Quando falo em ‘tradição africana’, devo saber a qual país estou me referindo, a qual nação, a qual grupo étnico etc, a mesma coisa tenho que falar da tradição cristã (católica, ortodoxa, primitiva, metodista etc) e assim vai. As próprias religiões ocidentais, por exemplo, atestam a influência que uma sofreu de outra, isso não é errado, a questão é a mistura sem entendimento.

 

 

Devemos atentar, também, para os conceitos: tradição não quer dizer religião e vice-versa. Religião é um termo que só é cabível num contexto ocidental. A tradição, por vezes, é vista como religião, sob o olhar do Ocidente, eivado dos conceitos judaico-cristãos, que para os praticantes das religiões tradicionais em África esta não se enquadra nesses conceitos. É por esse prisma que é completamente possível a um yorùbá ser cristão ou muçulmano e ainda assim cultuar os Orixás. Nesse caso, ele sabe exatamente o ‘lugar que cada um possui, assim sendo, não há misturas Tradição é a passagem de ensinamentos de uma geração a outra, sendo que sua origem é vista como divina, advinda por meio de um fato sobrenatural. Essa transmissão pode ser oral ou escrita ou pelo exemplo dos mais velhos. Já a cultura se refere às características que descrevem uma sociedade em um dado momento.

 

A tradição, muitas das vezes, permanece por longos períodos inalterada, enquanto a cultura muda continuamente.

 

Religião, no sentido usual do Ocidente se refere ao ‘religar’, ou seja, ligar de novo. Esse conceito somente cabe aos ocidentais, vez que está ligado diretamente à queda adâmica, ou seja, quando Adão caiu, ele foi retirado da Face de Deus, portanto ‘desligado’ de Sua Presença. Assim, a religião seria o meio possível de ligar novamente o homem a Deus.Para os praticantes das tradições africanas, por exemplo, essa ideia não existe, pois o homem nunca se desligou da divindade, ele nunca ‘caiu’ do Paraíso para o ‘mundo de expiações’.Nessas tradições a ligação é perpétua e inquebrantável. Nós podemos nos afastar das divindades, porém elas nunca se afastarão de nós.Dessa forma, quando um yorùbá muçulmano ou cristão cultua os Orixás ele está praticando sua tradição, não sua religião, pois para ele elas estão em ‘lugares’ diferentes.”

 

 

No decorrer do debate, lembrei-me de um texto que havia escrito, que veio ao encontro do que estávamos discutindo:

 

“Espanta-me, sinceramente, essa ideia fluida, novaerista e, para mim, sem sentido, de que a espiritualidade não deve estar ligada a nenhuma religião. Essa pretensa ‘liberdade’ é apenas desculpa, nada mais. O que se quer, na verdade, é não ter compromisso. Não seguir os princípios, os fundamentos, as regras, a hierarquia. Acham que, assim, terão um ar ‘clean’, sentir-se-ão mais ‘antenadas’, pois estão abertas a qualquer experiência, por isso se acham mais ‘sensíveis’, mais ‘leves’. Creem que invocar ou rezar, ao mesmo tempo, para São Miguel Arcanjo e Asmodeus (para dar exemplos comuns) é possível e mostra o quanto o rezador é ‘cool’, ‘legal’, ‘solto’ e ‘desapegado a regras’. E dá-lhe Zigmunt Bauman com a teoria da ‘modernidade fluida’. Eu, como perenialista, sempre me preocupo com a tradição original da prática espiritual que realizo; e, para tanto, me apoio na iniciação tradicional, ligada a alguma religião, a qual me permitirá acesso aos resultados esperados da prática. Isso dá trabalho, é maçante, obriga-nos a estudar, a nos esforçar, a acordar cedo e dormir muito tarde: pouquíssimos querem se submeter a isso!Como dizem os mais velhos: ‘todo mundo quer ir para o paraíso, mas ninguém quer morrer!’ ou ‘trabalho para quê? Trabalho dá muito trabalho’. Continuarei sendo chato, retrógrado, pesado, insensível, regrado, mas com a cabeça boa, sem problemas espirituais, sem confusões em minha vida e com a certeza de que minhas práticas espirituais serão sempre bem sucedidas.”

 

 

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