Templo Caboclo Pantera Negra

Ìròkò (Irôco)

A árvore sagrada conhecida por Ìròkò na África pertence à espécie Chlorophora/Milicia Excelsa/Regia; no entanto, em face da dificuldade em se trazer mudas desta árvore quando do início do Candomblé no Brasil, a Gameleira Branca, Ficus Doliaria, a substituiu. Foi uma adaptação necessária, como tantas outras adaptações acontecidas em nosso país.

 

A árvore Ìròkò por si só é sagrada e considerada como um Orixá vivo; entretanto, no Brasil, ela só se tornará um Orixá quando for preparada para isso. Após sua preparação ela recebe o pano branco (ọ̀jà àlà) que lhe é amarrado, passando, assim, a ser o próprio Orixá. Para os Iorubás a intersecção entre o tronco da árvore e o solo é considerada como um eixo horizontal/vertical, que representaria o centro do universo, a encruzilhada cósmica, sendo neste lugar depositadas todas as oferendas para Ìròkò. Acredita-se que é um lugar pleno de axé, onde os Orixás e Antepassados se reúnem. Por isso uma das saudações a Ìròkò é: A jùbá Ìròkò, Igi Ọ̀run (Saúdo Iroko, a Árvore do mundo espiritual).

 

Ìròkò é uma árvore sagrada para os Konnoh (Serra Leoa), Manon (Libéria e Guiné), Diafoba (Costa do Marfim e Guiné), Yorùbá (Benin, Togo, Nigéria) e Fon (Guiné e Benin). Esses povos fazem oferendas aos pés de Ìròkò utilizando-se obi (noz de cola), arroz, fios de algodão, folhas de màrìwò etc. É comum essas oferendas serem entregues por crianças. A sua madeira é utilizada para a fabricação de máscaras sagradas e das estátuas de divindades.

 

A árvore Ìròkò é utilizada para fins medicinais (folhas e cascas). Seu uso é associado à fertilidade a ao bem estar geral. Crê-se que Ìròkò protege as comunidades em que estão plantadas das epidemias, acidentes, azar, insucesso e doenças em geral.

 

Na verdade, Ìròkò é uma divindade originária dos Fon (antigo Dahome, atual Benin), ou seja, é um Vodun (divindade cultuada no Candomblé Jêje) cujo nome é Loko, sendo um dos principais Vodun do panteão Jêje. Foi muito comum a intercambiação de divindades entre os Iorubás e os Fon, como, p.ex., Oxumarê e Nanã, para citar alguns.

 

É muito comum colocar-se aos pés do Ìròkò (Loko) os assentamentos dos Òrìṣà (Vodun), especialmente de Èṣù (Legba), Ògún (Gu), Ọṣùmaré (Dan) e dos ancestrais ilustres, Egúngún.

 

Para os Fon Loko é a divindade patrona de todas as árvores (Atin). Na mitologia dos Fon ele é irmão de Ayaba, divindade protetora dos lares. Ambos são filhos do casal mítico Mawu e Lisa, sendo Loko o primogênito; entretanto, algumas lendas dizem que Sakpata seria o primogênito.

 

Ìròkò (Loko) está intimamente ligado ao culto de Ifá (Fá), sendo que há inúmeras lendas que afirmam que ele era um adivinho.

 

Para ilustrar a importância que Loko tem entre os Fon, trago uma de suas lendas que traduzi há algum tempo:

 

Em tempos remotos, Loko era apenas uma simples árvore.

Havia um homem que fazia cabos de enxada.

Seu nome era Kakpo.

Ele costumava ir à floresta para cortar árvores e assim obter madeira.

Certa vez ele encontrou uma árvore muito boa para cortar. Ele iria cortar Loko.

Então, Loko lhe disse: “não me corte, nenhum ser humano pode me cortar!”

Havia três Voduns que viviam na árvore de Loko.

Dan (um tipo de cobra, conhecida como Oxumarê para os Iorubá), Dangbe (cobra píton, a mesma mọ̀nà-mọ̀nà que acompanha Ògún) e Tohwiyo (ancestrais ilustres) do clã dos Ayato (um dos povos que formava o povo Fon do Dahome).

Loko possuia sete pequenas cabaças.

Loko disse ao pobre homem: “Vire-se para mim”.

Loko disse a ele: “Se eu lhe der riqueza, você fará o que eu lhe disser?

O pobre homem respondeu: “Sim!”

Loko lhe deu as sete pequenas cabaças.

Loko lhe disse: “Encontre um lugar aprazível e tranquilo e quebre uma por uma no chão”.

Loko disse: “Se eu lhe der riqueza você me dará um boi anualmente!”

Aquele lugar onde o homem quebrou a primeira cabaça se tornou sagrado.

Ele, então, quebrou a segunda cabaça, muitas casas surgiram.

Quando ele quebrou a terceira, as casas foram cercadas por grandes muralhas.

Com a quarta, uma liteira e um trono surgiram para suprir as necessidade de um rei.

Ele quebrou a quinta e ele viu muitas pessoas no interior das casas.

Ele quebrou a sétima e encontrou Fa (Ifá) e Legba (Èṣù), e todas as coisas necessárias para adorá-los.

Porém, Kakpo não deu a Loko o boi que havia prometido.

Agora, Loko se transformou em um homem.

Ele está usando uma roupa feita de ráfia (palha da costa).

Loko se dirigiu ao reino de Kakpo para lhe pedir um copo de água.

Ele encontrou o assessor do homem que havia se tornado um rei.

Loko lhe perguntou por seu mestre.

O assessor bateu nele, bateu-lhe com um chicote. Loko foi-se.

Ele voltou pela segunda vez e o mesmo se repetiu.

Ele voltou a terceira vez. Os súditos estavam ocupados cultivando para o rei. Os aldeões bateram em Loko com sua enxadas.

Loko começou a cantar uma canção:

Abaixem as enxadas,

Venham, um por um e dancem para mim

Vocês bailarinos, dançam melhor.

Loko cantava assim e enquanto cantava,

de uma só vez todas as pessoas que cultivavam desapareceram.

Os muros desapareceram.

As casas desapareceram.

Kakpo se tornou pobre novamente.

Loko deixou apenas a roupa de ráfia.

Fa retornou ao reino de Ifẹ̀ (capital do reino Iorubá, fazendo alusão aos Iorubá e a Ifá, cujo culto nasceu em Ilé Ifẹ̀)

O pobre homem procurou novamente Loko.

Ele se curvou diante de Loko, colocando sua testa na poeira do solo.

Ele implorou e suplicou que Loko o perdoasse.

“Eu vou lhe dar o boi que eu lhe havia prometido”.

Loko recusou. É por esse motivo que existem tantos negros pobres.

Referências

HERSKOVITS, Melville Jean; HERSKOVITS, Frances Shapiro. Dahomean Narrative: A Cross-Cultural Analysis. Ilinois, Northwestern University Press, 1958, pp. 165-166

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