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25 de maio. Bênção, Mamãe África

Ainda de pouco conhecimento da sociedade é o fato de no dia 25 de maio se comemorar o Dia da África. Data escolhida porque em 1963 a Organização de Unidade Africana, hoje com o nome de União Africana, foi fundada, com o objetivo de ser, internacionalmente, a voz dos africanos.

 

Hoje, dia 25 de maio de 2011, o Terreiro Ilê Axé Opo Afonjá está recebendo uma média de cinqüenta professores da rede municipal, juntamente com seu secretário, para conosco comemorar este dia, que se constitui em uma tentativa de que os olhos e os corações do mundo se preocupem e se ocupem de cuidar do povo desse continente, mas também de aprender e apreender sua sabedoria, que como neta de africana e iniciada em uma religião que tem em África sua matriz, foi a mim transmitida.

 

Oportunidade que tudo faço para não desperdiçar. Muitas sementes da sabedoria dos africanos, em mim plantadas, ainda não encontraram terreno fértil para germinar, mas não desisto e, por isso, cuido desse terreno em todo momento. Outras há, no entanto, que cresceram e até deram frutos.

 

Foi assim refletindo que resolvi homenagear o berço da humanidade – a África -, aproveitando esse precioso espaço de comunicação que a mim foi concedido para, humildemente, tentar espalhar essas sementes, na esperança que elas caiam em terrenos férteis.

 

Foi através da tradição oral, chamada na língua yorubá de ìpitan, que entrei em contato com a maravilhosa arte de viver do africano, que tem na alegria um de seus fundamentos. Entretanto, nós brasileiros, que temos nesse povo uma de nossas descendências, não devemos correr o risco de sermos megalomaníacos e considerar a filosofia africana a melhor.

 

Todo povo possui sua sabedoria, mas Sabedoria, assim como Deus, é uma só. A mesma base, os mesmos fundamentos, apenas transmitidos de acordo com a cultura e o lugar de viver correspondente. Se foi através da tradição oral que aprendi, é agora na escrita, ìwe-kikó, que encontro condições favoráveis para transmitir, para um maior número de pessoas possível, os ensinamentos absorvidos e os quais ainda pretendo assimilar, de maneira profunda.

 

Conheçamos, então, um pouco do muito que possui a filosofia do povo africano: É na alegria e na generosidade que se encontra a força que se precisa para enfrentar os obstáculos da vida: “Lé tutu lé tutu bó wá” = “Sigamos em frente alegremente, sigamos em frente iluminados, dividindo o alimento adquirido”.

 

A palavra tem o poder de materializar o que existe em potencial no universo, por isso os africanos falam muito e alto, quando precisam canalizar sua energia em direção ao que é essencial, mas silencia nas horas necessárias. Um orin nos faz entoar: “Tè rolè… Mã dé tè rolè. Báde tè role” = “Eu venero através do silêncio… Eu pretendo cobrir meus olhos e calar-me. Ser conveniente, respeitando através do silêncio”.

 

Nosso maior inimigo (como também nosso maior amigo) somos nós mesmos: “Dáààbòbò mi ti arami” = “Proteja-me de mim mesma”. O cuidado com o julgamento do outro e também com o instinto de perversidade: “Bí o ba ri o s’ikà bi o ba esè ta ìkà wà di méjì” = “Se vir o corpo de um perverso e chutá-lo, serão dois os perversos”. O respeito às diferenças: “Iká kò dógbà” = “Os dedos não são iguais”. A necessidade de um permanente contato com a Essência Divina que cada um possui: Eti èmí óré dé ìyàn. Àroyé èmí óré dé ìyà” = “Na dificuldade de decisão e no debate, a Essência Divina amplia a visão para argumentar”.

 

Como se vê, o corpo da tradição oral africana, que é composto de itan – mito, oriki – parte do mito que é recitada em forma de louvação e evocação, orin – cântico de louvação, adurá – reza, ówe – provérbio serve para nos disciplinar.

 

Entretanto, nenhuma sabedoria tem mais valor do que a filosofia do ìwà, palavra que pode ser traduzida como conduta, natureza, enfim, caráter. Devemos estar atentos aos nossos comportamentos. Pois, como falam os africanos após enterrar um amigo, “ó kù ó, ó kù ó ìwà ré”, querendo dizer, “não podemos lhe acompanhar no resto de sua viagem, agora só fica você e seus comportamentos”.

Referências

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Fonte: Jornal “A Tarde” de Salvador, de 25 de maio de 2011 (http://www.atarde.com.br/mundoafro/?p=4307)

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