Templo Caboclo Pantera Negra

A Santa Morte em terras brasileiras

Santa Morte (La Santa Muerte ou La Santisima Muerte)

 

Propomo-nos a discutir, neste artigo, o culto à Santa Morte que passou, nos últimos anos, a permear o universo esotérico, ocultista e religioso brasileiro, tornando-se um culto popular entre alguns adeptos da Umbanda, que acabaram por incluir entre suas práticas o culto à Santa Morte.

 

A morte como figura de adoração nas populações autóctones mexicanas

Antropólogos afirmam que as tradições indígenas mesoamericanas tiveram como característica comum o culto aos mortos por meio de elaborados ritos funerários e festas religiosas, tais como o miccailhuitontli e o ueymicailhuitl, respectivamente dedicadas às crianças e aos adultos mortos, nas quais se recordava, por meio de oferendas e procissões. O Império mais poderoso desta região, composto pelos mexicas, havia desenvolvido um elaborado culto aos deuses da guerra e da morte devido à sua natureza militar e expansionista. A imagem descarnada se encontrava presente nas representações de algumas divindades relacionadas com a morte e com o mundo subterrâneo, das quais se destacavam Mictlantecuhtli (masculino) e Mictlantecacíhuatl (feminino), cujas naturezas não eram, essencialmente, malignas, mas de característica dual.

 

Para as culturas pré-hispânicas em geral a concepção da morte não era, como no judeu-cristianismo, a do final definitivo da vida, mas parte de um ciclo de renovação constante1, pelo qual mais de uma divindade estava associada a ela, as quais personificavam forças destrutivas e criadoras ao mesmo tempo.

 

Em inscrições e esculturas pré-hispânicas é possível encontrar representações do deus Mictlantecuhtli, nas quais aparece com o corpo coberto por ossos humanos e com uma máscara em forma de crânio. Quando os europeus se encontraram com as caveiras pré-hispânicas interpretaram seu sentido sob a concepção medieval que possuíam desta imagem. Assim, os conquistadores espanhóis transladaram a consolidada iconografia medieval da morte, com seus atributos mais característicos, como a ampulheta, a foice, o globo terrestre e a capa à Colônia.

 

Antes da conquista pelos espanhóis, a territorialidade da morte era a passagem a outro mundo, a qual não estava influenciada pela educação cristã. Assim, não era o fracasso da vida, nem uma tragédia grega que atingia o limite do imaginário romântico medieval, nem tampouco a base da consciência da vida moderna. De todo modo, há alguns anos um debate acalorado sobre a procedência do culto à Santa Morte, tentando-se decifrar se é uma continuação dos cultos pré-hispânicos ou se é, fundamentalmente, um sistema de campos ritualísticos que se fundem na Colônia, como forma de refúgio, de esperança e fé ante às dificuldades do dia a dia.

 

O culto à Santa Morte tem como base ritual e como núcleo de crença elementos litúrgicos e míticos do catolicismo popular; ainda assim, muitos dos fieis praticam a multirreligiosidade, sendo especialmente vinculados a outras religiões populares, tais como a santeria e o espiritismo. Ainda que o rosário constitua o rito central em torno do qual se desenvolve o culto à Santa Morte, a celebração mensal realizada nos espaços dos altares é um momento de celebração vital. Antes e depois dessa cerimônia há festividades de vital importância, que fortalecem os laços sociais entre os adeptos. Nessas festividades se trocam presentes, conhecem-se pessoas, com as quais se socializam, compartilhando problemas, e lhes pedem ou lhes dão conselhos, tudo regado a muita comida e bebida, exercendo a comunhão plena entre os devotos.

 

Crê-se que o culto à Santa Morte, no México, se desenvolve com mais intensidade a partir dos anos 1960, tendo em vista as dificuldades pelas quais os mexicanos passam, especialmente a pobreza e falta de perspectiva de ascensão social. Nos anos 1990 outro elemento se junta, que é o crescente domínio do tráfico de drogas e o temor às gangues que o controla. Nesses casos, o culto oferece apoio a dois públicos distintos: às pessoas do povo, que buscam na Santa Morte proteção contra os traficantes; e os traficantes que buscam proteção contra as forças do Estado.

 

Seu dia principal de devoção, além do 15 de agosto, é o dia 02 de novembro. Em seu altar podemos ver velas, maconha, flores, comida, tabaco, bebidas etc. A Santa Morte é vista como uma santa cristã, que recebe “seus poderes diretamente de Deus, sendo que a aceitação de sua ascendência católica logra que os crentes não a considerem contrária a outras devoções afins, tais como São Judas Tadeu ou Nossa Senhora de Guadalupe. O que a diferencia destes outros é que a Santa Morte é ‘mais forte’, pois cumpre favores de maior peso. Normalmente oferece soluções em um amplo aspecto que vai de problemas cotidianos a existenciais e não é raro que se a relacione com petições mal-intencionadas, grupos criminais, especificamente o narcotráfico”. (DEGETAU, 2010:32)

 

A Santa Morte no Brasil

Um dos precursores da “Iglesia de la Santa Muerte” em solo brasileiro foi o Bispo da Igreja Brasileira, Don Lúcio de Jerusalém (Lúcio Evandro Paneque de Oliveira), que recebeu autorização para estabelecê-la no Brasil. Don Lúcio, um célebre ocultista, manteve a “Iglesia de la Santa Muerte” restrita a um pequeno número de pessoas, a maioria seus discípulos. No final de 2004 ele abre mão da chefatura da “Iglesia de la Santa Muerte”, delegando-a a Don Wladimir de Magdala, que ficou responsável pela Igreja.

 

Desde então, o culto da Santa Morte passou a fazer parte do já imenso caldeirão de tradições místico-esotérica-ocultista-religiosas brasileiras. Don Lúcio, que além de ocultista, era Sacerdote de religiões de tradição afro-brasileira e de matriz africana, acabou por incluir em sua práticas alguns elementos do culto à Santa Morte, à exemplo do que havia acontecido no México, quando o culto foi sincretizado com práticas da santeria e do espiritismo.

 

Don Wladimir, outro ocultista, que ganha a vida ministrando cursos sobre as tradições afro-ameríndias, passou a oferecer, também, a iniciação a “Iglesia de la Santa Muerte” aos interessados, que em sua maioria são adeptos da Umbanda, fazendo com que o culto à Santa Morte acabasse, como afirmei anteriormente, sendo acrescentado ao universo umbandista de algumas Casas de Umbanda.

 

Em paralelo, círculos esotéricos e ocultistas, formado essencialmente sob os auspícios de Don Lúcio e Don Wladimir, passaram a render culto a “La Santa Muerte”, buscando sua assistência para enfrentar as mazelas diuturnas, sendo mais um componente amalgamado ao que já existia nesses círculos.

Referências

DEGETAU, Jorge. Credos: Malverde y La Santa Muerte. Mexico, DF: Este país, 2010.

FRAGOSO, Perla. De la “calavera domada” a la subversión santificada. La Santa Muerte, un nuevo imaginario religioso em México. El Cotidiano, núm. 169, septiembre-octubre, 2011, pp. 5-16, Universidad Autónoma Metropolitana Azcapotzalco, México, DF.

MARTOS, Juan Antonio Flores. Transformismo y Tranculturación de un Culto Novomestizo emergente; La Santa Muerte Mexicana. In: LLERA, Manuela Cantón Ruy & CORNEJO, Mónica. Teorías y prácticas emergentes en Antropología de la Religión. Serie, XI Congreso de Antropología de la FAAEE, 2008, pp. 55-76.

URIARTE, Raúl René Villamil & CISNEROS, José Luis. De la Niña Blanca y la Flaquita, a la Santa Muerte. (Hacia la inversión del mundo religioso). El Cotidiano, núm. 169, septiembre-octubre, 2011

 

[1] Para os mexicas a existência em si mesma era um ciclo no qual os opostos desempenhavam um papel central, de maneira que sua cosmovisão se centrava na ideia de um mundo dual (luz-trevas, dia-noite, céu-terra, vida-morte), que se estendia aos deuses, aos quais se atribuíam qualidades positivas e negativas.

 

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